Inteligência Política

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Brasil no Presente da sociedade uruguaia: um imaginário e um regionalismo em construção, por Cauê Oliveira Fanha

Em MERCOSUL, Uruguai, 31 de outubro de 2009 às 4:29 pm

A imagem atual do Brasil expressa-se em uma visão dicotômica entre um país líder regional (ou com sérias aspirações a) e um país que exerce suas potência sem assumir compromissos regionais e custos dos processos e com atitudes que se chega a classificar como imperialista.

Estas duas visões se encontram, no momento, intrinsecamente ligadas, e são vitais aos tomadores de decisão uruguaios para definição da inserção internacional, da orientação em política exterior e do papel que o país possui na região e no mundo. Discutem-se temas delicados como os custos do processo de integração regional, a orientação do Mercosul, a estratégia e a maneira de aprofundar o processo, as assimetrias e os fundos estruturais para sua redução. Não obstante, as imagens vinculadas à liderança e à potência são as que predominam no conjunto.

Além deste âmbito “político-mercosuriano”, há outros de construção de imagens do Brasil: o regional sul-americano, o de cooperação bilateral, de edução e cultura e o de âmbito econômico.

No regional sul-americano, a imagem do Brasil associa-se positivamente às potencialidades da liderança do país na América do Sul e de formação de um pólo de poder no sistema internacional. Em outro sentido, negativo, vislumbram-se conflitos do Brasil com vários países da região, as dificuldades de exercício de seu poder e a falta de “cintura” na resolução de alguns conflitos. Em uma perspectiva macropolítica, este é o âmbito no qual se expressam mais claramente as diferenças em matéria de caminhos e modalidades de integração e modelos de desenvolvimento. De outro lado, também há a expressão de reivindicações nacionais e sua influência na política exterior. Com isto, o papel do Brasil no processo regional e o caminho que escolher são de suma importância, tanto para as reivindicações dos diferentes países como também para a orientação global do processo sul-americano.

No âmbito bilateral, pouco conhecido, há uma dimensão cooperativa, na qual se canalizam projetos, sobretudo na fronteira, que geram um componente positivo à imagem do Brasil.

No âmbito educativo-cultural, há uma rede com vários atores no Mercosul, que conformam os pilares da sociedade regional futura e associam diferentes modalidades de expressão dos povos. Aqui, a imagem do Brasil é mais contemporizadora e horizontal, na medida em que as redes e os atores se sentem partes da construção democrática de uma região diferente.

No âmbito econômico, a estratégia de expansão das empresas brasileiras desperta reações de preocupação e “nacionalistas”. Isto realimenta uma imagem do Brasil potência e expansionista, sem maiores preocupações com o exercício de uma real liderança regional.

Estas imagens refletem as etapas que a América do Sul e o Uruguai vivem nesta transição pós-Guerra Fria e pós-neo-liberalismo. Neste sentido, as políticas que o Brasil adote serão fundamentais à construção de novas imagens do país, melhores ou piores, e influenciarão as estratégias de desenvolvimento e as relações entre os países sul-americanos. São imagens que surgem na construção do regionalismo, cujo conteúdo será cada vez mais regional e terá conotação cada vez menos nacional, ainda quando a visibilidade destas mudanças não seja tão evidente no presente.

CAUÊ OLIVEIRA FANHA, Bacharel em Administração pela Universidade de Brasília (UnB), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

A formação do sistema político uruguaio, por João Gabriel Ayello Leite

Em Uruguai, 24 de setembro de 2009 às 12:03 pm

O livro Tres décadas de política uruguaya, de Ismael Crespo Martínez, traz em sua introdução uma suscinta explicação da constituição do sistema político uruguaio, que em sua opinião foi a democracia mais estável da América Latina até sua interrupção institucional em 1971.

Crespo aponta dois importantes fatores sociopolíticos que condicionaram, desde o início, a cultura política uruguaia. Primeiro, a colonização do território foi tardia e menos intensa do que em outras regiões da América espanhola, por exemplo Peru e México. Isso fez com que a colonização espanhola deixasse poucas marcas naquele território se comparado aos demais países hispânicos. Segundo, a ocupação do território deu-se com base em uma população largamente homogênea, formando uma sociedade com poucas clivagens, ao contrário das demais, em que se observava cortes como senhor/escravos e brancos/mestiços.
Ademais, outro fator diferenciador é encontrado no momento das crises oligárquicas pela qual passaram vários países latino-americanos no início do século XX. No Uruguai, nesse momento, observou-se uma verdadeira democratização da vida política, quando a classe média chega ao poder no período que se inicia pelo governo de Battle y Ordóñez e no qual se observa a modernização socioeconômica do país com a formação de um verdadeiro “Welfare State”.

Por fim, os partidos uruguaios tradicionais, Nacional e Colorado, desenvolveram, em função de sua existência centenária, uma legitimidade que se transmitia ao sistema político. Além disso, nenhuma das agremiações políticas tinham força suficiente para anular a outra, e a elite não conseguia traduzir satisfatóriamente poder econômico em poder político, o que levava a duas situações: a. respeito à disputa política democrática; b. flexibilização programática para atrair o maior número de associados e de eleitores possível. Havia, então, uma situação de bipartidarismo em que, dentro dos partidos, várias correntes se manifestavam. O sistema eleitoral acomodou essa realidade ao criar a eleição para o partido (lema) e para correntes dentro do partido (sublema). Essa configuração eleitoral e o sistema partidário, muito interessantes para analisar a estabilidade política do Uruguai, ficam, no entanto, como tema para posts posteriores.

A política uruguaia durante a maior parte do século XX foi a mais estável da América Latina. Essa estabilidade esteve calcada nas carcaterísticas da cultura política uruguaia, cujos principais aspectos e condicionantes se apresentaram aqui.

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

O exemplo a seguir, por João Gabriel Ayello Leite

Em Uruguai, 22 de setembro de 2009 às 4:19 am

Deu-se muita atenção, inclusive na imprensa internacional, à coincidência da chegada de vários governos de esquerda na América do Sul, que agora se aproximam do fim de seus mandatos. Nas preparações para a sucessão, esses governos com matizes políticas similares movimentam-se no sentido de manter as boas relações que a coincidência do governo de partidos com conteúdos programáticos similares ensejou.
No caso do Uruguai, cujo presidente Tabaré Vázques foi incluido por vários analistas internacionais no grupo da liderança de esquerda menos radical do qual Lula faz parte, o candidato de sucessão, José “Pepe” Mujica, já manifestou, mais de uma vez, sua admiração a Lula, afirmando ser o mandatário brasileiro um exemplo a seguir.
Um exemplo que Mujica parece estar seguindo é a adequação de sua apresentação – que foge à lógica da defesa de uma democracia por substância e por conteúdo, mais do que por forma e por aparência -, isto é, o ex-guerrilheiro tupamaro trocou em algumas ocasiões – para a surpresa de muitos – seus trajes informais característicos por um terno.

José Mujica em seu traje habitual

José Mujica em seu traje habitual

"Pepe" Mujica de terno com Lula

Para além do exemplo “ilustrativo”, o candidato frenteamplista afirmou admirar a forma como o presidente brasileiro logrou chegar ao poder e a governar sempre com uma ampla coalizão de forças sociais em seu apoio, mas sem deixar de promover ações para os mais necessitados.
Parece que, malgrado todos os problemas da política brasileira, há características positivas que são percebidas por outros países e que, possivelmente, formam uma espécie de forma de governar típica do Brasil (Mujica destaca a capacidade conciliadora e de acomodação de Lula) que logra servir de exemplo ou influenciar os demais.

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

Visões do Outro: Argentina e Uruguai, por Tiago Wolff Beckert

Em Argentina, Uruguai, 17 de setembro de 2009 às 2:46 am

Argentina e Uruguai, assim como Brasil, desenvolveram suas economias em bases agroexportadoras. Em período recente do passado, entretanto, perceberam vulnerabilidades nessa forma de inserção internacional – baseados em diagnóstico cepalino. Aplicaram, então, uma estratégia de substituição de importações. Vale ressaltar que, no Brasil, a política de substituição de importações (PSI) não se inicia essencialmente como uma política pública consciente, mas devido, sobretudo, à conjuntura internacional favorável que permitiu a industrialização. Nos casos argentino e uruguaio (bem como no chileno), o processo foi, desde o inicio, carregado de maior intencionalidade. Essa estratégia, essencialmente econômica, coincide no tempo com processos políticos pontuados pela instabilidade das instituições democráticas. O colapso do processo ocorre ainda em período autoritário – no início do processo de transição para a democracia.

O PSI entra em crise por problemas de escassez de mercado interno e de ineficiências do próprio processo. Em países como o Uruguai, com mercado interno muito pequeno, é difícil imaginar que esse sistema funcionaria. No caso do Brasil, deveu-se muito mais à combinação de dois desequilíbrios gerados por essa estratégia: inflação e acúmulo de dívida externa. Nota-se que todos esses países, após a democratização, seguem processos de liberalização econômica semelhantes. No início desse ciclo, observa-se uma série de ganhos – principalmente em eficiência. Com o tempo, percebe-se que tais ganhos vêm acompanhados de alguns problemas – na concentração de renda, na vulnerabilidade do câmbio, na fragilidade do balanço de pagamentos. O caso da Argentina é emblemático, já que a exacerbação dessas dificuldades levou à grave crise no país. Talvez como tentativa de superação desses problemas, tem-se o último ciclo comparável entre esses países: a chegada ao poder de alianças de centro-esquerda (os Kirchners na Argentina, Tabare Vasquez no Uruguai e Lula no Brasil).

Peru e Bolívia, por sua vez…

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

El hermano mayor, por João Gabriel Ayello Leite

Em Argentina, Bolívia, Peru, Uruguai, 17 de setembro de 2009 às 2:43 am

A notícia é de agosto de 2009, mas suscita considerações a respeito das implicações da política doméstica e das preferências partidárias sobre a política externa de um país, ainda mais sobre temas de política externa que conformam (ou deveriam conformar) objetivos de longo prazo dos governos, como é o caso da integração regional.
O Uruguai enconta-se às vésperas de suas eleições presidenciais, em que os dois principais candidatos são o frenteamplista José Mujica (esquerda e situação) e o blanco Luis Alberto Lacalle (direita e oposição). Nesse contexto, o candidato situacionista visitou o Brasil em agosto e, em entrevistas aos meios uruguaios, afirmou que:

Brasil es el líder natural del Mercosur, y tiene mucha experiencia en los temas y los problemas de la región, y además es el principal cliente para nuestras exportaciones.

Mais adiante, Mujica defende o avanço no processo de inetagração, visando um aumento na institucionalização e no aumento da supranacionalidade do bloco. Essas afirmações em muito contrastam com as do outro candidato à presidência. Lacalle acredita que o Uruguai deva abandonar o Parlamento do Mercosul.

É interessante avaliar que a posição dos dois candidatos passa por afinidades e considerações partidárias e de orientação política: o Frente Amplio, um partido de esquerda, apresenta uma atitude positiva em relação ao vecino norteño também governado pela esquerda, enquanto o candidato do Partido Nacional parece refletir o antigo antagonismo entre Brasil e blancos uruguaios.

Cabe perguntar-se se haveria uma divisão discernível ou uma forte tendência com relação à aceitação da liderança brasileira – ou à uma atitude mais positiva à ela – entre as diversas agremiações políticas uruguaias, isto é, há diferença entre os partidos ou as orientações políticas no Uruguai (ou nos demais países de interesse) e sua visão a respeito do Brasil?

Ainda não se conta com elementos suficientes para responder a essa pergunta, mas, objetivando acumular um volume de registros e observações que, futuramente, possam conformar um trabalho mais encorpado, cumpre destacar que se, por um lado, existem atores políticos nos países vizinhos que veem de forma mais positiva a “liderança brasileira”; por outro, essa atitude vem acompanhada de expectativas de “generosidade” por parte do Brasil, como fica explícito nas palavras de Mujica:

Brasil tiene una visión a largo plazo [y para] un país pequeño, como el nuestro, resulta muy difícil acceder a grandes avances tecnológicos [...] Es el hermano mayor de Uruguay [y] le vamos a pedir colaboración.

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

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