Inteligência Política

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Impressões sobre a política externa do Peru

Em Peru, 30 de outubro de 2009 às 4:29 pm

O presente texto busca sumarizar as percepções iniciais do nosso trabalho de pesquisa sobre a política externa peruana, principalmente em relação ao lugar do Brasil nessa política. Como essa pesquisa ainda não foi concluída, procuraremos apresentar apenas algumas hipóteses iniciais, a respeito dos eixos estruturantes da diplomacia do Peru. Mais adiante, esperamos expor novas pesquisas neste mesmo espaço.
A análise da política externa peruana dos últimos anos demonstra significativa aproximação do modelo chileno, isto é, uma forte abertura à entrada de investimentos externos, uma aposta na inserção econômica internacional baseada na exploração de recursos naturais, principalmente minérios, e uma política de diversificação de parcerias. Um dos eixos centrais dessa estratégia é a negociação de Tratados de Livre Comércio (TLCs) com os principais mercados do mundo, como Estados Unidos e China. A ratificação do TLC com os EUA é bastante representativa desse movimento. Em 2008, o Peru foi o anfitrião da reunião de cúpula da APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation)
Se nos atermos à evolução das exportações nos últimos anos, a estratégia tem sido bem-sucedida. As exportações do país vizinho saltaram de pouco mais de US$ 6 bilhões, em 1999, para US$ 31 bilhões, em 2008. O Produto Interno Bruto de 2008 chegou a mais de US$ 238 bilhões, o que representa um crescimento de 9,84% ,em relação a 2007.
À primeira vista, o papel do Brasil nessa estratégia é relativamente coadjuvante. Apesar do crescimento do comércio bilateral nos últimos anos (passou de US$ 724 milhões em 2003 para US$ 3,3 bilhões em 2008), o Brasil ainda é apenas o 8º maior importador de produtos peruanos. Em relação aos investimentos, o Brasil tem apenas 2% do estoque total de IED (Investimento Externo Direto) no país vizinho.
Qual é, então, o sentido da aproximação entre os dois países, a partir da perspectiva peruana? Em 2003, os presidentes Alejandro Toledo e Luis Inácio Lula da Silva assinaram acordo estabelecendo uma “Aliança Estratégica” entre os países. Ainda em 2003, Toledo manifestou apoio à pretensão brasileira de ter um acento permanente no Conselho de Segurança da ONU. A eleição de García aparentemente não alterou a vontade de estabelecer uma relação especial com o Brasil: sua primeira visita como presidente eleito (do segundo mandato) foi Brasília, onde foi reiterado o aspecto estratégico da aliança e onde foi saudada a “hegemonia positiva “do Brasil na América do Sul.
No decorrer de nossa pesquisa, algumas fatores que provavelmente impulsionam essa aproximação foram aventados e serão explorados em textos futuros. O primeiro é a coincidência na determinação dos dois países em diversificar suas parceiras e em estimular um sistema econômico internacional baseado no multilateralismo e no direito. O segundo é a determinação de Alan García de, tanto na perspectiva dos peruanos, quanto dos estrangeiros, fazer parte do grupo conhecido na mídia internacional como a “esquerda responsável” da América do Sul, ao lado de Lula e de Michelle Bachelet. O terceiro é o papel do Brasil como estabilizador regional, já que García se elegeu vencendo Ollanta Humala, que contava com o apoio de Hugo Chavéz. Desde então, tem sido tensa a relação entre o Peru e seus vizinhos bolivarianos. O quarto fator é a importância da agenda de infra-estrutura e de fronteira para o Peru. As regiões do país que serão mais beneficiadas pelos projetos da IIRSA são bastante problemáticas, do ponto de vista político e econômico, para García. A aliança com o Brasil pode representar um alívio para a renitente baixa popularidade de García, que permanece na casa dos 20%, a despeito do crescimento econômico.

Grupo Peru

Visões do Outro: Peru e Bolívia, por Tiago Wolff Beckert

Em Bolívia, Peru, 17 de setembro de 2009 às 2:47 am

Peru e Bolívia, por sua vez, diferenciam-se do Brasil em muitos aspectos. Em primeiro lugar, tais países não buscaram abandonar a inserção econômica internacional baseada na exportação de produtos primários. Em segundo lugar, e talvez muito mais importante, as populações indígenas desses países, muito numerosas e com consciência étnica, caminham no sentido de consolidar um movimento indigenista forte – gerando reflexos no próprio processo político.

Na Bolívia, o objetivo do movimento indigenista atual é evitar que o ciclo do gás natural tenha o mesmo destino dos outros ciclos econômicos vividos pelo país (como o da prata): apropriação por parte do “imperialismo” (seja externo, seja doméstico). Isso porque a atual riqueza do país é advinda essencialmente da exportação do gás – cuja exploração é integralmente controlada pelo Estado. Desse modo, cria-se forte incentivo para se obter o controle político e, uma vez lá chegando, explorar alternativas para passar por cima dos demais atores sociais.

Condição determinante desse processo é a separação entre os centros político e econômico do país. Os centros políticos bolivianos (La Paz e Sucre) ficam em áreas do altiplano, povoadas principalmente pela população indígena. O centro mais dinâmico da economia, entretanto, não se encontra lá, mas na área conhecida como medialuna. Episódio característico dessa distribuição geográfica foi observado durante o período em que o movimento indigenista protestava contra o governo das elites tradicionais, logrando levar os centros políticos do país à total paralisia.

O Peru possui maior diversidade econômica, baseando-se na produção de produtos agrícolas tradicionais e de produtos minerais. A maior complexidade econômica aliada a um processo de industrialização menos incipiente proporciona menor concentração do poder econômico (seja nas mãos de um pequeno setor privado, seja nas mãos do Estado). Desse modo, qualquer grupo político, ao chegar ao poder, possui menor capacidade relativa de determinar a agenda de forma unilateral.

A composição social peruana é de maioria indígena, e o país foi pioneiro na América do Sul no que se refere à chegada de um indígena ao poder. Alejandro Toledo, entretanto, não realizou um governo indigenista, mas muito conservador e com política econômica extremamente previsível, sem gerar rupturas institucionais. A grande dificuldade do Peru em sua história recente, então, não diz respeito a questões de ordem primordialmente econômica, mas ao processo de instabilidade política interna associado à emergência de um movimento de guerrilha, Sendero Luminoso, derrotado pela via armada – sobretudo no governo Fujimori. O Exército Peruano, ao atacar o grupo, não fez distinção entre guerrilheiros, por um lado, e grupos sindicais e indigenistas, por outro – desarticulando os movimentos sociais peruanos e dificultando o amadurecimento e a articulação institucional.

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

El hermano mayor, por João Gabriel Ayello Leite

Em Argentina, Bolívia, Peru, Uruguai, 17 de setembro de 2009 às 2:43 am

A notícia é de agosto de 2009, mas suscita considerações a respeito das implicações da política doméstica e das preferências partidárias sobre a política externa de um país, ainda mais sobre temas de política externa que conformam (ou deveriam conformar) objetivos de longo prazo dos governos, como é o caso da integração regional.
O Uruguai enconta-se às vésperas de suas eleições presidenciais, em que os dois principais candidatos são o frenteamplista José Mujica (esquerda e situação) e o blanco Luis Alberto Lacalle (direita e oposição). Nesse contexto, o candidato situacionista visitou o Brasil em agosto e, em entrevistas aos meios uruguaios, afirmou que:

Brasil es el líder natural del Mercosur, y tiene mucha experiencia en los temas y los problemas de la región, y además es el principal cliente para nuestras exportaciones.

Mais adiante, Mujica defende o avanço no processo de inetagração, visando um aumento na institucionalização e no aumento da supranacionalidade do bloco. Essas afirmações em muito contrastam com as do outro candidato à presidência. Lacalle acredita que o Uruguai deva abandonar o Parlamento do Mercosul.

É interessante avaliar que a posição dos dois candidatos passa por afinidades e considerações partidárias e de orientação política: o Frente Amplio, um partido de esquerda, apresenta uma atitude positiva em relação ao vecino norteño também governado pela esquerda, enquanto o candidato do Partido Nacional parece refletir o antigo antagonismo entre Brasil e blancos uruguaios.

Cabe perguntar-se se haveria uma divisão discernível ou uma forte tendência com relação à aceitação da liderança brasileira – ou à uma atitude mais positiva à ela – entre as diversas agremiações políticas uruguaias, isto é, há diferença entre os partidos ou as orientações políticas no Uruguai (ou nos demais países de interesse) e sua visão a respeito do Brasil?

Ainda não se conta com elementos suficientes para responder a essa pergunta, mas, objetivando acumular um volume de registros e observações que, futuramente, possam conformar um trabalho mais encorpado, cumpre destacar que se, por um lado, existem atores políticos nos países vizinhos que veem de forma mais positiva a “liderança brasileira”; por outro, essa atitude vem acompanhada de expectativas de “generosidade” por parte do Brasil, como fica explícito nas palavras de Mujica:

Brasil tiene una visión a largo plazo [y para] un país pequeño, como el nuestro, resulta muy difícil acceder a grandes avances tecnológicos [...] Es el hermano mayor de Uruguay [y] le vamos a pedir colaboración.

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

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