O presente texto busca sumarizar as percepções iniciais do nosso trabalho de pesquisa sobre a política externa peruana, principalmente em relação ao lugar do Brasil nessa política. Como essa pesquisa ainda não foi concluída, procuraremos apresentar apenas algumas hipóteses iniciais, a respeito dos eixos estruturantes da diplomacia do Peru. Mais adiante, esperamos expor novas pesquisas neste mesmo espaço.
A análise da política externa peruana dos últimos anos demonstra significativa aproximação do modelo chileno, isto é, uma forte abertura à entrada de investimentos externos, uma aposta na inserção econômica internacional baseada na exploração de recursos naturais, principalmente minérios, e uma política de diversificação de parcerias. Um dos eixos centrais dessa estratégia é a negociação de Tratados de Livre Comércio (TLCs) com os principais mercados do mundo, como Estados Unidos e China. A ratificação do TLC com os EUA é bastante representativa desse movimento. Em 2008, o Peru foi o anfitrião da reunião de cúpula da APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation)
Se nos atermos à evolução das exportações nos últimos anos, a estratégia tem sido bem-sucedida. As exportações do país vizinho saltaram de pouco mais de US$ 6 bilhões, em 1999, para US$ 31 bilhões, em 2008. O Produto Interno Bruto de 2008 chegou a mais de US$ 238 bilhões, o que representa um crescimento de 9,84% ,em relação a 2007.
À primeira vista, o papel do Brasil nessa estratégia é relativamente coadjuvante. Apesar do crescimento do comércio bilateral nos últimos anos (passou de US$ 724 milhões em 2003 para US$ 3,3 bilhões em 2008), o Brasil ainda é apenas o 8º maior importador de produtos peruanos. Em relação aos investimentos, o Brasil tem apenas 2% do estoque total de IED (Investimento Externo Direto) no país vizinho.
Qual é, então, o sentido da aproximação entre os dois países, a partir da perspectiva peruana? Em 2003, os presidentes Alejandro Toledo e Luis Inácio Lula da Silva assinaram acordo estabelecendo uma “Aliança Estratégica” entre os países. Ainda em 2003, Toledo manifestou apoio à pretensão brasileira de ter um acento permanente no Conselho de Segurança da ONU. A eleição de García aparentemente não alterou a vontade de estabelecer uma relação especial com o Brasil: sua primeira visita como presidente eleito (do segundo mandato) foi Brasília, onde foi reiterado o aspecto estratégico da aliança e onde foi saudada a “hegemonia positiva “do Brasil na América do Sul.
No decorrer de nossa pesquisa, algumas fatores que provavelmente impulsionam essa aproximação foram aventados e serão explorados em textos futuros. O primeiro é a coincidência na determinação dos dois países em diversificar suas parceiras e em estimular um sistema econômico internacional baseado no multilateralismo e no direito. O segundo é a determinação de Alan García de, tanto na perspectiva dos peruanos, quanto dos estrangeiros, fazer parte do grupo conhecido na mídia internacional como a “esquerda responsável” da América do Sul, ao lado de Lula e de Michelle Bachelet. O terceiro é o papel do Brasil como estabilizador regional, já que García se elegeu vencendo Ollanta Humala, que contava com o apoio de Hugo Chavéz. Desde então, tem sido tensa a relação entre o Peru e seus vizinhos bolivarianos. O quarto fator é a importância da agenda de infra-estrutura e de fronteira para o Peru. As regiões do país que serão mais beneficiadas pelos projetos da IIRSA são bastante problemáticas, do ponto de vista político e econômico, para García. A aliança com o Brasil pode representar um alívio para a renitente baixa popularidade de García, que permanece na casa dos 20%, a despeito do crescimento econômico.
Grupo Peru