O texto “México: La coyuntura política de Sudamérica y el protagonismo de sus líderes”, publicado na coletânea “Mercosul sob os olhos do Mundo” (Unesco/Univ. Federal de Pelotas, 2008) traz os resultados de pesquisa, realizada entre 1 e 31 de dezembro de 2007, sobre a forma como o Mercosul é apresentado ao público mexicano pelos principais jornais do país. Foram pesquisadas, neste período, notícias e reportagens publicadas sobre o assunto nos jornais El Universal, Reforma e La Jornada, definidos como os principais jornais do México por possuírem altos níveis em três indicadores: 1) tiragem total de edições diárias; 2) anos de edição e distribuição; e 3) enfoque latinoamericanista e peso sociopolítico na agenda nacional mexicana.
A pesquisa levou em consideração cinco categorias de análise ao estudar as reportagens no período, sob a Metodologia para Identificar as Características Estruturais do Conhecimento Comunicativo (MICECC), quais sejam: 1) Autor, público e protagonistas da notícia; 2) O que é, como se entende e a partir de onde se estuda o Mercosul; 3) Propostas da agenda de notícias (pauta) na construção da notícia sobre o Mercosul e características do conhecimento empírico que emerge dela; 4) afirmações ético-políticas da notícia; 5) procedimentos de exclusão, crítica e opacidade dos fatos na notícia.
No período estudado, a palavra Mercosul apareceu 187 vezes, em um total de 58 notícias nos três jornais conjuntamente. Nessas notícias, o Mercosul vem frequentemente associado aos termos “bloco”, “bloco latinoamericano”, “bloco sul-americano” e “mercado comum”, entre outros, que são usados também em associação com duas instituições muito citadas na mídia mexicana no período: a OMC e a União Europeia.
Da mesma forma, as menções ao Mercosul frequentemente se vinculam a alguns países, com prevalência de Brasil, Argentina e, apesar de ainda não ser membro oficial do bloco, Venezuela. É notável que o Brasil seja apenas o terceiro país mais citado, precedido por Argentina, em primeiro lugar, e Venezuela, em segundo. Uruguai, Paraguai, Bolívia e México são também citados pela mídia em referência ao bloco, em ordem respectiva.
As referências ao Mercosul também se associam a alguns líderes ou protagonistas políticos, e neste aspecto também Lula aparece em terceiro lugar, sendo precedido por Cristina Fernández Kirchner, primeiramente, e Hugo Chávez, em seguida. Tabaré Vázquez, Evo Morales e Néstor Kirchner também são associados ao bloco, mas com freqüência menor. Os autores ressaltam que o número de vezes em que são citados os presidentes líderes da lista é muito maior do que o de Lula, que se aproxima dos líderes seguintes: enquanto a presidente argentina foi citada 77 vezes e seu homônimo venezuelano o foi 68 vezes, o brasileiro recebeu apenas 29 menções nas reportagens estudadas.
Nas 58 notícias estudadas, os três principais assuntos específicos abordados foram: 1) Livre-Comércio da região sul-americana e seu impacto nos países membros ou futuros membros do Mercosul; 2) Análise sociopolítica de um país, grupo ou região; 3) Assinatura de tratados, acordos e convênios entre sócios e futuros sócios do Mercosul. Em menor medida, temas como a integração da Venezuela ao Bloco, a agenda global de segurança e o meio ambiente também são tratados, sem muita ênfase, entretanto.
Os principais contextos culturais, institucionais, políticos e econômicos com que a imprensa mexicana trata o tema do Mercosul são diversos, mas podem-se destacar alguns, como a alegada falta de solução a alguns problemas históricos do Bloco, de que seria parte a inexistência de adequadas instituições supranacionais, o que, nas quase duas décadas de integração, teria fomentado conflitos entre Estados e travado o cumprimento de objetivos de longo prazo, submetendo o processo e a dinâmica do Mercosul ao individualismo de certos governantes.
Mas o principal contexto sob o qual se trata o tema do Mercosul na imprensa mexicana é o político, com especial enfoque no tema da adesão da Venezuela ao bloco. Este tema aparece geralmente com dois matizes: um que consistiria em uma visão otimista dessa incorporação, que colaboraria para que se “mova o tabuleiro” do bloco e permitiria discutir as assimetrias nacionais e diminuir o peso relativo do Brasil frente aos demais sócios; e outro que consistiria em uma visão mais pessimista com relação ao tema, seja pelas dificuldades de aprovação do ingresso venezuelano pelos Congressos de Brasil e Paraguai, seja pelas incertezas e instabilidades institucionais que a figura de Hugo Chávez traria ao bloco, segundo as notícias estudadas.
Esse matiz pessimista permeia o trato da imprensa mexicana em relação aos membros minoritários do Mercosul, como Paraguai e Uruguai. O primeiro apareceria como um dos grandes perdedores do bloco, sendo vítima de uma “verdadeira injustiça” imposta pelos sócios maiores, Argentina e Brasil, que nunca teriam efetivamente aberto seus mercados; o segundo apareceria em diversas reportagens como tendo uma estratégia não-declarada de transitar por um “caminho do meio”, mantendo-se no Mercosul, mas buscando abrir mercados unilateralmente fora do Bloco – o que seria exemplo, inclusive, para o Paraguai.
Assim, os autores do artigo afirmam que, de acordo com as notícias estudadas, não se nota no Mercosul um espírito comunitário, enquanto cada país defende cada vez mais suas políticas nacionais. Ademais, a integração, cada vez mais difícil, dependeria sem dúvida do Brasil, para quem o bloco poderia não mais ser um mercado tão importante economicamente, mas uma estrutura política para negociações específicas, como na OMC.
Como conclusão, os autores afirmam que, de acordo com a pesquisa, o Mercosul não é tema central da agenda jornalística mexicana, sendo tratado como processo político restrito à América do Sul e, portanto, secundário para os mexicanos, o que se reflete no fato de publicarem-se principalmente apenas notas informativas, sem opinião ou análise sobre o assunto. Assim, apesar da clara noção de tratar-se de um bloco econômico, as notícias sobre o Mercosul veiculadas nos principais jornais mexicanos usaram o bloco apenas como contexto para abordar a conjuntura política na região. Nela, ademais, o Brasil apareceria como ator hegemônico, embora desafiado pela crescente liderança da figura de Hugo Chávez, mais citado na imprensa do que Lula.
William Silva dos Santos, graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), ingressou na carreira diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).
Marcelo Koiti Hasunuma, graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ingressou na carreira diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).