Inteligência Política

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A Imprensa Mexicana e o Mercosul, por William Silva dos Santos e Marcelo Koiti Hasunuma

Em México, 16 de novembro de 2009 às 12:50 am

O texto “México: La coyuntura política de Sudamérica y el protagonismo de sus líderes”, publicado na coletânea “Mercosul sob os olhos do Mundo” (Unesco/Univ. Federal de Pelotas, 2008) traz os resultados de pesquisa, realizada entre 1 e 31 de dezembro de 2007, sobre a forma como o Mercosul é apresentado ao público mexicano pelos principais jornais do país. Foram pesquisadas, neste período, notícias e reportagens publicadas sobre o assunto nos jornais El Universal, Reforma e La Jornada, definidos como os principais jornais do México por possuírem altos níveis em três indicadores: 1) tiragem total de edições diárias; 2) anos de edição e distribuição; e 3) enfoque latinoamericanista e peso sociopolítico na agenda nacional mexicana.

A pesquisa levou em consideração cinco categorias de análise ao estudar as reportagens no período, sob a Metodologia para Identificar as Características Estruturais do Conhecimento Comunicativo (MICECC), quais sejam: 1) Autor, público e protagonistas da notícia; 2) O que é, como se entende e a partir de onde se estuda o Mercosul; 3) Propostas da agenda de notícias (pauta) na construção da notícia sobre o Mercosul e características do conhecimento empírico que emerge dela; 4) afirmações ético-políticas da notícia; 5) procedimentos de exclusão, crítica e opacidade dos fatos na notícia.

No período estudado, a palavra Mercosul apareceu 187 vezes, em um total de 58 notícias nos três jornais conjuntamente. Nessas notícias, o Mercosul vem frequentemente associado aos termos “bloco”, “bloco latinoamericano”, “bloco sul-americano” e “mercado comum”, entre outros, que são usados também em associação com duas instituições muito citadas na mídia mexicana no período: a OMC e a União Europeia.

Da mesma forma, as menções ao Mercosul frequentemente se vinculam a alguns países, com prevalência de Brasil, Argentina e, apesar de ainda não ser membro oficial do bloco, Venezuela. É notável que o Brasil seja apenas o terceiro país mais citado, precedido por Argentina, em primeiro lugar, e Venezuela, em segundo. Uruguai, Paraguai, Bolívia e México são também citados pela mídia em referência ao bloco, em ordem respectiva.

As referências ao Mercosul também se associam a alguns líderes ou protagonistas políticos, e neste aspecto também Lula aparece em terceiro lugar, sendo precedido por Cristina Fernández Kirchner, primeiramente, e Hugo Chávez, em seguida. Tabaré Vázquez, Evo Morales e Néstor Kirchner também são associados ao bloco, mas com freqüência menor. Os autores ressaltam que o número de vezes em que são citados os presidentes líderes da lista é muito maior do que o de Lula, que se aproxima dos líderes seguintes: enquanto a presidente argentina foi citada 77 vezes e seu homônimo venezuelano o foi 68 vezes, o brasileiro recebeu apenas 29 menções nas reportagens estudadas.

Nas 58 notícias estudadas, os três principais assuntos específicos abordados foram: 1) Livre-Comércio da região sul-americana e seu impacto nos países membros ou futuros membros do Mercosul; 2) Análise sociopolítica de um país, grupo ou região; 3) Assinatura de tratados, acordos e convênios entre sócios e futuros sócios do Mercosul. Em menor medida, temas como a integração da Venezuela ao Bloco, a agenda global de segurança e o meio ambiente também são tratados, sem muita ênfase, entretanto.

Os principais contextos culturais, institucionais, políticos e econômicos com que a imprensa mexicana trata o tema do Mercosul são diversos, mas podem-se destacar alguns, como a alegada falta de solução a alguns problemas históricos do Bloco, de que seria parte a inexistência de adequadas instituições supranacionais, o que, nas quase duas décadas de integração, teria fomentado conflitos entre Estados e travado o cumprimento de objetivos de longo prazo, submetendo o processo e a dinâmica do Mercosul ao individualismo de certos governantes.

Mas o principal contexto sob o qual se trata o tema do Mercosul na imprensa mexicana é o político, com especial enfoque no tema da adesão da Venezuela ao bloco. Este tema aparece geralmente com dois matizes: um que consistiria em uma visão otimista dessa incorporação, que colaboraria para que se “mova o tabuleiro” do bloco e permitiria discutir as assimetrias nacionais e diminuir o peso relativo do Brasil frente aos demais sócios; e outro que consistiria em uma visão mais pessimista com relação ao tema, seja pelas dificuldades de aprovação do ingresso venezuelano pelos Congressos de Brasil e Paraguai, seja pelas incertezas e instabilidades institucionais que a figura de Hugo Chávez traria ao bloco, segundo as notícias estudadas.

Esse matiz pessimista permeia o trato da imprensa mexicana em relação aos membros minoritários do Mercosul, como Paraguai e Uruguai. O primeiro apareceria como um dos grandes perdedores do bloco, sendo vítima de uma “verdadeira injustiça” imposta pelos sócios maiores, Argentina e Brasil, que nunca teriam efetivamente aberto seus mercados; o segundo apareceria em diversas reportagens como tendo uma estratégia não-declarada de transitar por um “caminho do meio”, mantendo-se no Mercosul, mas buscando abrir mercados unilateralmente fora do Bloco – o que seria exemplo, inclusive, para o Paraguai.

Assim, os autores do artigo afirmam que, de acordo com as notícias estudadas, não se nota no Mercosul um espírito comunitário, enquanto cada país defende cada vez mais suas políticas nacionais. Ademais, a integração, cada vez mais difícil, dependeria sem dúvida do Brasil, para quem o bloco poderia não mais ser um mercado tão importante economicamente, mas uma estrutura política para negociações específicas, como na OMC.

Como conclusão, os autores afirmam que, de acordo com a pesquisa, o Mercosul não é tema central da agenda jornalística mexicana, sendo tratado como processo político restrito à América do Sul e, portanto, secundário para os mexicanos, o que se reflete no fato de publicarem-se principalmente apenas notas informativas, sem opinião ou análise sobre o assunto. Assim, apesar da clara noção de tratar-se de um bloco econômico, as notícias sobre o Mercosul veiculadas nos principais jornais mexicanos usaram o bloco apenas como contexto para abordar a conjuntura política na região. Nela, ademais, o Brasil apareceria como ator hegemônico, embora desafiado pela crescente liderança da figura de Hugo Chávez, mais citado na imprensa do que Lula.

William Silva dos Santos, graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), ingressou na carreira diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

Marcelo Koiti Hasunuma, graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ingressou na carreira diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

“La integración regional: una responsabilidad compartida entre Brasil y México” de Salvador Arriola, por Marcelo Koiti Hassunuma e William Silva dos Santos

Em México, 4 de novembro de 2009 às 1:41 pm

Segundo o artigo de Arriola, os últimos 6 anos foram marcados por um constante aumento do comércio bilateral e dos investimentos entre Brasil e México. Destacam-se, nesse diapasão, os investimentos mexicanos no Brasil, que somam, no início de 2009, 16,5 bilhões de dólares, o que coloca o México em 7º lugar na classificação dos principais investidores e em 1º lugar dentre os países em desenvolvimento.

Dentre as razões para essa aproximação comercial e financeira, destacar-se-iam acordos intergovernamentais (Acordo de Complementação Econômica nº 53 e o Acordo Automotriz e de Autopartes nº 55) e a iniciativa dos empresários de ambos os países, que influíram na consecução dos referidos acordos e em seu bom aproveitamento.

As oportunidades existentes, demonstradas pelas cifras alcançadas, poderiam ser resumidas em 2 constatações: o Brasil precisaria com urgência aceder aos mercados de maior peso (e o México é o país da América Latina que mais importações realiza e que mais acordos de livre comércio possui); e o México deveria intensificar suas exportações para os mercados de crescimento mais dinâmico (como o Brasil).

Discursando sobre os obstáculos à aproximação, o autor cita a tentativa de difusão da idéia de que o México haveria se alijado da América Latina na década de 1990 (mesmo sendo o país que mais investe e compra na região), bem como o mito sobre a eterna disputa entre os dois países pela liderança (ainda que temporária) da região, o que impossibilitaria a cooperação mútua.

Como pontos de aproximação, o autor ressalta a existência de similitudes e de desafios comuns que os obrigam a conhecer-se melhor e a estabelecer projetos prioritários de cooperação bilateral. Com efeito, é citado que o Brasil e México “son los dos países de América Latina con mayor población y dimensión económica, con el mayor número de pobres y con enormes desigualdades regionales que siguen sin resolverse. Las prioridades que han establecido Brasil y México para lograr el desarollo de sus sociedades son exactamente las mismas: crecimiento económico sostenible, ataque a la pobreza, reforma fiscal, desarrollo social, educación e innovación y seguridad e infraestructura” (página 57).

Arriola destaca ainda o avanço na relação política com o estabelecimento, em março de 2007, de uma Comissão Binacional, que possui como objetivo fortalecer a relação bilateral, em todos os seus âmbitos e níveis, bem como a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao México, entre 5 e 7 de agosto de 2007. O autor lamenta, no entanto, a falta de cumprimento dos compromissos que derivam de todas essas iniciativas governamentais, sugerindo o comprometimento de ambos os países perante um terceiro parceiro (poderia ser o BID ou alguma outra instituição financeira), no tocante a projetos concretos, para que haja comprometimento maior (com cronogramas específicos, etc).

Analisando a relação entre Brasil e México como sendo não-prioritária para ambos os países, o autor propõe que se privilegie de outro modo a relação estratégica que deveria ser construída entre os dois países. Esse caminho alternativo seria a união dos esforços pela integração da América Latina.

Após ressaltar as iniciativas brasileiras e mexicanas em favor da integração, o autor ressalta as contribuições individuais de cada país para a integração regional – a qual trata como um compromisso de ambos os países, por serem seus verdadeiros impulsionadores (em termos de vontade política), como demonstram a Cúpula da Bahia de 2008, em Sauípe, e o compromisso mexicano de assumir com responsabilidade a Secretaria Pró-Tempore do Grupo de Rio.

Segundo o autor, essa perspectiva estaria implícita no Comunicado Conjunto emitido no marco do Grupo do Rio, durante a Cúpula da Bahia, verbis: “en relación con la integración de América Latina y el Caribe, decidieron manter un dialogo permanente en torno a la participación de ambos países en los distintos procesos y mecanismos de integración que existen en la región, para hacer realidad la convicción compartida de que tales procesos y mecanismos se comuniquen y converjan en el propósito último y más amplio de la unidad latinoamericana y caribeña. Para avanzar en ese objetivo, instruyeron a sus cancilleres a proponer esquemas concretos que favorezcan el intercambio de experiencias e identifiquen las áreas de cooperación y las necesarias sinergias entre los diferentes procesos y mecanismos de asociación que existen en la región.” (página 63)

O artigo, segundo o próprio autor, visaria contribuir com algumas idéias para o cumprimento da instrução dos chanceleres supra mencionada, que deveria dar ênfase ao desenvolvimento de uma infra-estrutura física de integração (ex. direcionamentos do PAC e da IIRSA, pelo Brasil, e do Programa Nacional de Infraestructura de México e do Proyecto de Integración y Desarollo de Mesoamérica, pelo México) e à distribuição equitativa dos benefícios gerados entre todos os participantes desse processo de integração.

O autor sugere a organização, por ambos os países, de um Seminário Latino-Americano de Infra-estrutura que permita a apresentação das características dos projetos existentes tanto na IIRSA quanto no Proyecto Mesoamericano. Esse seminário, de caráter prospectivo, deveria contar não apenas com o apoio dos governos e instituições financeiras regionais, como também de bancos comerciais privados e de empresas latino-americanas do setor de infra-estrutura. A valorização de projetos de infra-estrutura, bem como de iniciativas produtivas, sociais e de educação e cultura, seria essencial para a criação de uma mentalidade de desenvolvimento sustentável e de solidariedade inter-societal nas áreas de fronteira.

Por fim, Arriola conclui apontando que o interesse comum no sentido de se avançar para uma maior integração econômica entre os distintos esquemas de integração sempre careceu de um marco referencial e de uma coordenação institucional que permitam o desenvolvimento e o cumprimento de programas e de calendários precisos. Institucionalizar a integração, definindo responsabilidades, seria, assim, de grande urgência. Para o autor, o Grupo do Rio deveria ser o órgão dotado de tal responsabilidade.

*Artigo publicado na Foreign Affairs Latinoamérica Vol 9, nº 2, 2009

MARCELO KOITI HASUNUMA, graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

WILLIAM SILVA DOS SANTOS, graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

México, as Américas e o Mundo, por Marcelo Koiti Hasunuma e William Silva dos Santos

Em México, 21 de outubro de 2009 às 12:15 am

Foi-nos indicado, por um de nossos contatos mexicanos, a seguinte pesquisa de opinião pública (e entre líderes) sobre a política externa mexicana: “México, las Américas y el Mundo 2008″, encomendada pelo Centro de Investigación y Docencia Económicas – Division de Estudios Internacionales.

Destacamos que, segundo a pesquisa:

1. os mexicanos em geral priorizam a integração com a América Latina (ao passo que os líderes priorizam a integração com a América do Norte), o que reflete o aumento de sua desconfiança em relação às políticas dos EUA;
2. o fortalecimento da OEA (e também da ONU) não é visto como prioridade para os mexicanos, ao contrário do combate ao narcotráfico e a defesa dos interesses dos mexicanos no estrangeiro, indicando forte pragmatismo;
3. existe grande discrepância entre as opiniões da opinião pública e as dos líderes, definidos como pessoas em posição de mando o direção nos setores político, governamental, acadêmico-universitário e nos meios de comunicação e nos setores privado e trabalhista-social. Isso pode, em hipótese, gerar problemas de legitimidade das decisões de política externa que o México venha a tomar no futuro próximo; e
4. as pessoas em posições de mando ou de direçao (“líderes”) vêem o Brasil como líder/país de maior influência (na década passada e para o futuro) da América Latina, o que não é acompanhado pela opinião pública, que ainda vê o México como maior protagonista.

Abaixo, listamos resumo com os resultados da pesquisa que julgamos serem mais interessantes para o Brasil:

- os mexicanos possuem interesse e estão em contato com o mundo (52% se interessam muito ou um pouco sobre noticias das relações entre o México e outros países);

- cidadãos e lideres possuem uma forte identidade nacional, ainda que no sul a identidade local predomine;

- os mexicanos não são isolacionistas e preferem uma participação internacional ativa por parte do México (63% da população e 93% dos líderes)

- os mexicanos possuem uma visão de política exterior mais pragmática do que legalista ou altruísta. Seus 3 objetivos prioritários em política externa são o combate ao narcotráfico e ao crime organizado (81%), a proteção dos direitos dos mexicanos no estrangeiro (76%) e a proteção ao meio ambiente (76%). Os 3 objetivos vistos como menos importantes são fortalecer a OEA (31%), promover a democracia em outros países (37%) e fortalecer a ONU (42%)

- os líderes querem que o México participe do Conselho de Segurança da ONU (75%), na condição de membro não-permanente; no entanto, 59% se opõem a que eles sirvam em operação militares da ONU (capacetes azuis). Entre a população, existem 60% de apoio ao México fornecer homens para os capacetes azuis da ONU.

- domina a desconfiança da população em relação aos EUA (61%), sendo que esse número subiu em relação às pesquisas dos anos anteriores (o nível era de 43% em 2004 e 53% em 2006). Entre a elite, a desconfiança prevalece entre 64% dos entrevistados (antes: 41% em 2006). Quanto mais longe da fronteira norte se está, maior a desconfiança (45% no norte contra 62% no centro e 72% no sul).

- a América Latina é a região a que se deve prestar mais atenção (37% da população), contra 30% para a América do Norte e 10% para a Europa.

- 46% do público e 54% dos líderes pensam que o México deve se coordenar com os países latino-americanos sem pretender ser líder, enquanto 41% do público e 45% dos líderes opinam que o México deveria buscar liderar a região.

- o público considera que o México foi o país mais influente na região durante a última década (22%) e que o continuará sendo na próxima (28%); os líderes divergem desta opinião e outorgam esta influencia ao Brasil tanto na década passada (64%) quanto no futuro (54%).

- 35% dos mexicanos e 37% dos líderes opinam que a prioridade do México deve ser integrar-se com a América Latina e 30% e 27%, respectivamente, com a América do Norte.

MARCELO KOITI HASUNUMA, graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

WILLIAM SILVA DOS SANTOS, graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

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