Peru e Bolívia, por sua vez, diferenciam-se do Brasil em muitos aspectos. Em primeiro lugar, tais países não buscaram abandonar a inserção econômica internacional baseada na exportação de produtos primários. Em segundo lugar, e talvez muito mais importante, as populações indígenas desses países, muito numerosas e com consciência étnica, caminham no sentido de consolidar um movimento indigenista forte – gerando reflexos no próprio processo político.
Na Bolívia, o objetivo do movimento indigenista atual é evitar que o ciclo do gás natural tenha o mesmo destino dos outros ciclos econômicos vividos pelo país (como o da prata): apropriação por parte do “imperialismo” (seja externo, seja doméstico). Isso porque a atual riqueza do país é advinda essencialmente da exportação do gás – cuja exploração é integralmente controlada pelo Estado. Desse modo, cria-se forte incentivo para se obter o controle político e, uma vez lá chegando, explorar alternativas para passar por cima dos demais atores sociais.
Condição determinante desse processo é a separação entre os centros político e econômico do país. Os centros políticos bolivianos (La Paz e Sucre) ficam em áreas do altiplano, povoadas principalmente pela população indígena. O centro mais dinâmico da economia, entretanto, não se encontra lá, mas na área conhecida como medialuna. Episódio característico dessa distribuição geográfica foi observado durante o período em que o movimento indigenista protestava contra o governo das elites tradicionais, logrando levar os centros políticos do país à total paralisia.
O Peru possui maior diversidade econômica, baseando-se na produção de produtos agrícolas tradicionais e de produtos minerais. A maior complexidade econômica aliada a um processo de industrialização menos incipiente proporciona menor concentração do poder econômico (seja nas mãos de um pequeno setor privado, seja nas mãos do Estado). Desse modo, qualquer grupo político, ao chegar ao poder, possui menor capacidade relativa de determinar a agenda de forma unilateral.
A composição social peruana é de maioria indígena, e o país foi pioneiro na América do Sul no que se refere à chegada de um indígena ao poder. Alejandro Toledo, entretanto, não realizou um governo indigenista, mas muito conservador e com política econômica extremamente previsível, sem gerar rupturas institucionais. A grande dificuldade do Peru em sua história recente, então, não diz respeito a questões de ordem primordialmente econômica, mas ao processo de instabilidade política interna associado à emergência de um movimento de guerrilha, Sendero Luminoso, derrotado pela via armada – sobretudo no governo Fujimori. O Exército Peruano, ao atacar o grupo, não fez distinção entre guerrilheiros, por um lado, e grupos sindicais e indigenistas, por outro – desarticulando os movimentos sociais peruanos e dificultando o amadurecimento e a articulação institucional.
Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).