Inteligência Política

Arquivo da categoria ‘Bolívia’

Visões do Outro: Peru e Bolívia, por Tiago Wolff Beckert

Em Bolívia, Peru, 17 de setembro de 2009 às 2:47 am

Peru e Bolívia, por sua vez, diferenciam-se do Brasil em muitos aspectos. Em primeiro lugar, tais países não buscaram abandonar a inserção econômica internacional baseada na exportação de produtos primários. Em segundo lugar, e talvez muito mais importante, as populações indígenas desses países, muito numerosas e com consciência étnica, caminham no sentido de consolidar um movimento indigenista forte – gerando reflexos no próprio processo político.

Na Bolívia, o objetivo do movimento indigenista atual é evitar que o ciclo do gás natural tenha o mesmo destino dos outros ciclos econômicos vividos pelo país (como o da prata): apropriação por parte do “imperialismo” (seja externo, seja doméstico). Isso porque a atual riqueza do país é advinda essencialmente da exportação do gás – cuja exploração é integralmente controlada pelo Estado. Desse modo, cria-se forte incentivo para se obter o controle político e, uma vez lá chegando, explorar alternativas para passar por cima dos demais atores sociais.

Condição determinante desse processo é a separação entre os centros político e econômico do país. Os centros políticos bolivianos (La Paz e Sucre) ficam em áreas do altiplano, povoadas principalmente pela população indígena. O centro mais dinâmico da economia, entretanto, não se encontra lá, mas na área conhecida como medialuna. Episódio característico dessa distribuição geográfica foi observado durante o período em que o movimento indigenista protestava contra o governo das elites tradicionais, logrando levar os centros políticos do país à total paralisia.

O Peru possui maior diversidade econômica, baseando-se na produção de produtos agrícolas tradicionais e de produtos minerais. A maior complexidade econômica aliada a um processo de industrialização menos incipiente proporciona menor concentração do poder econômico (seja nas mãos de um pequeno setor privado, seja nas mãos do Estado). Desse modo, qualquer grupo político, ao chegar ao poder, possui menor capacidade relativa de determinar a agenda de forma unilateral.

A composição social peruana é de maioria indígena, e o país foi pioneiro na América do Sul no que se refere à chegada de um indígena ao poder. Alejandro Toledo, entretanto, não realizou um governo indigenista, mas muito conservador e com política econômica extremamente previsível, sem gerar rupturas institucionais. A grande dificuldade do Peru em sua história recente, então, não diz respeito a questões de ordem primordialmente econômica, mas ao processo de instabilidade política interna associado à emergência de um movimento de guerrilha, Sendero Luminoso, derrotado pela via armada – sobretudo no governo Fujimori. O Exército Peruano, ao atacar o grupo, não fez distinção entre guerrilheiros, por um lado, e grupos sindicais e indigenistas, por outro – desarticulando os movimentos sociais peruanos e dificultando o amadurecimento e a articulação institucional.

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

El hermano mayor, por João Gabriel Ayello Leite

Em Argentina, Bolívia, Peru, Uruguai, 17 de setembro de 2009 às 2:43 am

A notícia é de agosto de 2009, mas suscita considerações a respeito das implicações da política doméstica e das preferências partidárias sobre a política externa de um país, ainda mais sobre temas de política externa que conformam (ou deveriam conformar) objetivos de longo prazo dos governos, como é o caso da integração regional.
O Uruguai enconta-se às vésperas de suas eleições presidenciais, em que os dois principais candidatos são o frenteamplista José Mujica (esquerda e situação) e o blanco Luis Alberto Lacalle (direita e oposição). Nesse contexto, o candidato situacionista visitou o Brasil em agosto e, em entrevistas aos meios uruguaios, afirmou que:

Brasil es el líder natural del Mercosur, y tiene mucha experiencia en los temas y los problemas de la región, y además es el principal cliente para nuestras exportaciones.

Mais adiante, Mujica defende o avanço no processo de inetagração, visando um aumento na institucionalização e no aumento da supranacionalidade do bloco. Essas afirmações em muito contrastam com as do outro candidato à presidência. Lacalle acredita que o Uruguai deva abandonar o Parlamento do Mercosul.

É interessante avaliar que a posição dos dois candidatos passa por afinidades e considerações partidárias e de orientação política: o Frente Amplio, um partido de esquerda, apresenta uma atitude positiva em relação ao vecino norteño também governado pela esquerda, enquanto o candidato do Partido Nacional parece refletir o antigo antagonismo entre Brasil e blancos uruguaios.

Cabe perguntar-se se haveria uma divisão discernível ou uma forte tendência com relação à aceitação da liderança brasileira – ou à uma atitude mais positiva à ela – entre as diversas agremiações políticas uruguaias, isto é, há diferença entre os partidos ou as orientações políticas no Uruguai (ou nos demais países de interesse) e sua visão a respeito do Brasil?

Ainda não se conta com elementos suficientes para responder a essa pergunta, mas, objetivando acumular um volume de registros e observações que, futuramente, possam conformar um trabalho mais encorpado, cumpre destacar que se, por um lado, existem atores políticos nos países vizinhos que veem de forma mais positiva a “liderança brasileira”; por outro, essa atitude vem acompanhada de expectativas de “generosidade” por parte do Brasil, como fica explícito nas palavras de Mujica:

Brasil tiene una visión a largo plazo [y para] un país pequeño, como el nuestro, resulta muy difícil acceder a grandes avances tecnológicos [...] Es el hermano mayor de Uruguay [y] le vamos a pedir colaboración.

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.