Inteligência Política

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Visões do Outro: Argentina e Uruguai, por Tiago Wolff Beckert

Em Argentina, Uruguai, 17 de setembro de 2009 às 2:46 am

Argentina e Uruguai, assim como Brasil, desenvolveram suas economias em bases agroexportadoras. Em período recente do passado, entretanto, perceberam vulnerabilidades nessa forma de inserção internacional – baseados em diagnóstico cepalino. Aplicaram, então, uma estratégia de substituição de importações. Vale ressaltar que, no Brasil, a política de substituição de importações (PSI) não se inicia essencialmente como uma política pública consciente, mas devido, sobretudo, à conjuntura internacional favorável que permitiu a industrialização. Nos casos argentino e uruguaio (bem como no chileno), o processo foi, desde o inicio, carregado de maior intencionalidade. Essa estratégia, essencialmente econômica, coincide no tempo com processos políticos pontuados pela instabilidade das instituições democráticas. O colapso do processo ocorre ainda em período autoritário – no início do processo de transição para a democracia.

O PSI entra em crise por problemas de escassez de mercado interno e de ineficiências do próprio processo. Em países como o Uruguai, com mercado interno muito pequeno, é difícil imaginar que esse sistema funcionaria. No caso do Brasil, deveu-se muito mais à combinação de dois desequilíbrios gerados por essa estratégia: inflação e acúmulo de dívida externa. Nota-se que todos esses países, após a democratização, seguem processos de liberalização econômica semelhantes. No início desse ciclo, observa-se uma série de ganhos – principalmente em eficiência. Com o tempo, percebe-se que tais ganhos vêm acompanhados de alguns problemas – na concentração de renda, na vulnerabilidade do câmbio, na fragilidade do balanço de pagamentos. O caso da Argentina é emblemático, já que a exacerbação dessas dificuldades levou à grave crise no país. Talvez como tentativa de superação desses problemas, tem-se o último ciclo comparável entre esses países: a chegada ao poder de alianças de centro-esquerda (os Kirchners na Argentina, Tabare Vasquez no Uruguai e Lula no Brasil).

Peru e Bolívia, por sua vez…

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

El hermano mayor, por João Gabriel Ayello Leite

Em Argentina, Bolívia, Peru, Uruguai, 17 de setembro de 2009 às 2:43 am

A notícia é de agosto de 2009, mas suscita considerações a respeito das implicações da política doméstica e das preferências partidárias sobre a política externa de um país, ainda mais sobre temas de política externa que conformam (ou deveriam conformar) objetivos de longo prazo dos governos, como é o caso da integração regional.
O Uruguai enconta-se às vésperas de suas eleições presidenciais, em que os dois principais candidatos são o frenteamplista José Mujica (esquerda e situação) e o blanco Luis Alberto Lacalle (direita e oposição). Nesse contexto, o candidato situacionista visitou o Brasil em agosto e, em entrevistas aos meios uruguaios, afirmou que:

Brasil es el líder natural del Mercosur, y tiene mucha experiencia en los temas y los problemas de la región, y además es el principal cliente para nuestras exportaciones.

Mais adiante, Mujica defende o avanço no processo de inetagração, visando um aumento na institucionalização e no aumento da supranacionalidade do bloco. Essas afirmações em muito contrastam com as do outro candidato à presidência. Lacalle acredita que o Uruguai deva abandonar o Parlamento do Mercosul.

É interessante avaliar que a posição dos dois candidatos passa por afinidades e considerações partidárias e de orientação política: o Frente Amplio, um partido de esquerda, apresenta uma atitude positiva em relação ao vecino norteño também governado pela esquerda, enquanto o candidato do Partido Nacional parece refletir o antigo antagonismo entre Brasil e blancos uruguaios.

Cabe perguntar-se se haveria uma divisão discernível ou uma forte tendência com relação à aceitação da liderança brasileira – ou à uma atitude mais positiva à ela – entre as diversas agremiações políticas uruguaias, isto é, há diferença entre os partidos ou as orientações políticas no Uruguai (ou nos demais países de interesse) e sua visão a respeito do Brasil?

Ainda não se conta com elementos suficientes para responder a essa pergunta, mas, objetivando acumular um volume de registros e observações que, futuramente, possam conformar um trabalho mais encorpado, cumpre destacar que se, por um lado, existem atores políticos nos países vizinhos que veem de forma mais positiva a “liderança brasileira”; por outro, essa atitude vem acompanhada de expectativas de “generosidade” por parte do Brasil, como fica explícito nas palavras de Mujica:

Brasil tiene una visión a largo plazo [y para] un país pequeño, como el nuestro, resulta muy difícil acceder a grandes avances tecnológicos [...] Es el hermano mayor de Uruguay [y] le vamos a pedir colaboración.

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), ingressou na Carreira Diplomática em 2009 (Terceiro Secretário).

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